DESABAFO DO ARTISTA DO SÉCULO

Trecho do livro Orson Welles de André Bazin

Procuro sempre a síntese: é um trabalho que se apaixona, pois devo ser sincero em relação ao que sou e não passo de um experimentador; experimentar é a única coisa que me entusiasma . Não tenho devoção alguma pelo o que eu faço; é realmente sem valor aos meus olhos. Sou profundamente cínico em relação ao meu trabalho e `a maioria das obras que vejo no mundo: mas não sou cínico em relação ao ato de trabalhar sobre uma matéria-prima. É difícil explicar. Nós , que fazemos profissão de experimentadores, herdamos uma velha tradição: alguns foram grandes artistas, mas nunca fizemos musas de nossas amantes. Por exemplo, Leonardo considerava-se um cientista que pintava , não um pintor que teria sido cientista. Não gostaria que achassem que estou me comparando a Leonardo, mas de explicar que há uma longa linhagem de pessoas que estimam suas obras segundo uma hierarquia diferente de valores, quase morais. Não fico,portanto , em êxtase diante da função humana, o que pressupõe tudo o que fazemos com nossas mãos, nossos sentidos etc. Uma vez terminado nosso trabalho , ele não tem tanta importância aos meus olhos quanto aos da maioria dos estetas: é o ato que me interessa , não o resultado, a não ser quando ele emana o cheiro do suor humano, ou um pensamento…Agora estou escrevendo e pintando, buscando um meio de gastar minha energia, pois passei a maior parte destes ultimos quinze anos correndo atrás de dinheiro; se fosse escritor , ou sobretudo pintor , não teria que fazer isso. Tenho também um grave problema com minha personalidade de ator de sucesso, o que encoraja críticos do mundo inteiro a acharem que estaria na hora de me desencorajar um pouco, sabem como é: ” O que faria bem a ele seria lhe dizer que, no final das contas ele não é tão bom assim. ” Mas há vinte e cinco anos eles me dizem isso! Não, na verdade passei meses a fio , anos a fio procurando trabalho , e tenho apenas uma vida. Portanto , por ora escrevo e pinto. Jogo fora tudo que faço, mas talvez acabe fazendo alguma coisa suficientemente boa para conservá-la: é preciso. Não posso passar minha existência em festivais ou restaurantes mendigando fundos. Tenho certeza de que só consigo fazer bons filmes se for eu a escrever o roteiro: poderia fazer thrillers, naturalmente, mas não tenho nenhuma vontade. O único filme que escrevi da primeira `a ultima palavra foi Cidadão Kane. Ora, passaram-se muitos anos desde que me foi dada essa oportunidade! Posso esperar mais quinze anos até que alguém se disponha novamente a depositar confiança absoluta em mim? Não, preciso encontrar um meio de expressão mais barato… como este gravador!

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