A MONTAGEM DISTANTE DE ARTAVAZD PELESHIAN

Semana passada , Gregorio Gananian me apresentou, via wikipedia,  Artavazd Peleshian (1938-) , cineasta de origem armenia , desconhecido por muitos, mas aclamado como genio   por outros genios como Sergei Parajanov e Jean-Luc Godard.

Peleshian iniciou sua carreira no Instituto VGIK em Moscou. Seus primeiros  filme,j á traziam as características que iriam constituir toda a sua obra ao longo do século (cuja a soma dos filmes não chega à três horas) :  filmes sem diálogos mas com diversas camadas de som, utilização de lentes tele-objetivas, o registro do movimento do mundo , da humanidade e dos frames cinematográficos, o uso constante de colagens de material de outros filmes, e a criação de uma nova técnica : a montagem distante .

HABITANTES – OBITTELI 1970

Ao invés de trazer o conflito entre um plano A com um plano B, ou  mesmo uma síntese entre eles (como propõe Sergei Eisenstein) , a busca de Peleshian é de revelar a distancia que existe entre eles. O fragmento de um filme, seus planos, não funcionam de maneira individual, mas como partes de um todo.

VIDA – KYANQ (1993)

Peleshian coloca o espectador à distancia, dando a ele um olhar omnisciente sobre toda a humanidade e não apenas a alguns individuos com suas aspirações e objetivos. Isso fica ainda mais enfatizado com o constante uso das lentes teles. Não há personagens nos filmes de Peleshian.

FIM – VERJ (1994)

Traduzi do francês para portugues uma entrevista de 1992, entre Godard  e Peleshian. Vale lembrar que o cinema de Peleshian influenciou fortemente o cinema de Godard apartir da decada de noventa até os dias de hoje ( FILME SOCIALISMO)

Jean-Luc Godard: Como eu sou um pouco pessimista, eu vejo o fim das coisas, em vez de seu início. Para mim, cinema é a última manifestação de arte, que é uma idéia ocidental. A grande pintura desapareceu, o grande romance desapareceu. O cinema foi, sim, uma língua antes de Babel, que todos entenderam, sem necessidade de aprender. Mozart agradava os príncipes, mas os camponeses não o escutavam. Enquanto que um equivalente cinematográfico de Mozart,  como Chaplin,satisfazia todo mundo.

Os cineastas  buscaram , numa investigação de atitude bem ocidental , o que seria o fundamento da unidade cinematográfica:  a montagem.Falaram muito, especialmente em tempos de mudança. No século XX, a maior mudança foi a passagem do Império Russo à União Soviética, logicamente, é  os russos que foram mais longe nesta investigação , simplesmente porque, com a Revolução, a sociedade estava disposta a fazer a montagem entre o antes e o depois.

 

Artavazd Pelechian: O cinema é constituído por três fatores: o espaço, o tempo e o  movimento real . Estes três elementos existem na natureza, mas entre as artes, apenas o cinema os reencontrou. Graças a eles , o cinema pode trazer o movimento secreto da matéria. Estou convencido de que o cinema é capaz de falar, ao mesmo tempo, as línguagens da filosofia, da ciência e da  arte. Talvez tenha sido  essa unidade que  procuravam os antigos .

Jean – Luc Godard: Encontramos a mesma coisa se reflectirmos sobre a história da idéia da projeção, como ela se originou e evoluiu até  aplicar-se, tecnicamente, no aparelho de projeção. Os gregos tinham imaginado o princípio,  na famosa caverna de Platão.Essa idéia ocidental , que nem os  budistas, nem os astecas viram, tomou forma com o cristianismo, que repousa sobre a  esperança de alguma coisa maior.

Em seguida , sempre no Ocidente , vem a forma prática, com os matemáticos que inventavam a geometria descritiva,. Pascal trabalhou muito  com uma revisão do pensamento religioso, místico, na elaboração dos seus cálculos sobre as formas cônicas. O cone é a idéia de projecção.

Depois, há Jean Victor Poncelet, um estudioso e oficial de Napoleão. Ele foi preso na Rússia, e é lá  onde desenvolveu seu Tratado sobre as propriedades projetivas das figuras, que é a base da teoria moderna sobre o assunto. Não é por acaso que ele fez essa descoberta na prisão. Havia uma parede na frente dele, e ele fez o que  fazem todos os presos, ele projetava. Um desejo de escapar. Como matemático, ele escreveu a tradução em equações.

No final do século XIX, veio a realização técnica. Um dos aspectos mais interessantes é que desta vez o filme sonoro estava pronto. Edison chegou a Paris para apresentar um método que utilizava um disco em sincronia com a imagem, um método que até hoje é utilizado em algumas salas  de cinema, que combinam um CD com o filme , tendo assim um som digital. E funcionou! Com imperfeições, tais como  as imagens dessa época, mas funcionou e poderiam ter melhorado a técnica. Mas as pessoas não queriam. O público queria que o cinema fosse mudo, as pessoas queriam ver.

Artavazd Pelechian: Quando o som finalmente chegou , no fim dos anos 20, os grandes cineastas como Griffith, Chaplin e Eisenstein tiveram medo. Eles achavam que o som era um passo para trás. Eles não estavam errados, mas por razoes diferentes do que eles pensavam: o som não veio obstruir a montagem, ele veio  para substituir a imagem.

Jean-Luc Godard: A técnica do discurso veio na ascensão do fascismo na Europa, que é também o tempo do advento do orador. Hitler era um orador magnifico, e também Mussolini, Churchill, De Gaulle, Stalin. O discurso foi o triunfo do roteiro teatral contra a linguagem (como você mencionou)  anterior à maldição de Babel.

Artavazd Pelechian: Para reencontrar essa linguagem, eu utilizo o que  chamo de  imagens ausentes . Acho que podemos escutar as imagens e ver o som. Nos meus filmes, a imagem se encontra a lado do som (côte du son) e o som se encontra ao lado da imagem (côte de l’image) . Estes intercâmbios deram um resultado diferente do que da montagem dos tempos do mudo, ou melhor, do “não falado”.

Jean-Luc Godard: Hoje, a imagem e o som estão cada vez mais separados, devido principalmente  à televisão. A imagem de um lado, o som do outro, sem haver nenhuma relação entre eles , sem qualquer relação real e saudável. Eles têm apenas relação com a política. Por isso quem , em todos os países do mundo , a televisão está nas mãos dos políticos. E agora, os políticos se preocupam em fabricar um novo formato de imagem (a chamada alta definição), um formato que, por enquanto, ninguém precisa.

Esta é a primeira vez que as autoridades políticas estão preocupadas em dizer: você vai ver as imagens neste formato, através dessa janela . Uma imagem que tem a forma desses ventiladores de metro, essas coisas que ficam no nível da calçada. A forma de um talão de cheques.

Artavazd Pelechian: Eu me pergunto o que a televisão trouxe. Ela pode liquidar a  distância, mas apenas o cinema tem a capacidade de lutar de maneira eficaz contra o tempo, graças a montagem. Este micróbio que é o tempo, o cinema pode vir a superar. Mas esse caminho estava mais avançado antes do cinema falado. Porque, sem dúvida, o homem é maior do que a língua, maior do que suas palavras. Eu acredito mais no homem do que em sua linguagem.

AS QUATRO ESTAÇÕES – VREMENA GODA (1975)

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